Memórias Póstumas: Jão revisita suas emoções em um disco bonito, porém contido
Depois de um período longe dos lançamentos, Jão retorna com Memórias Póstumas, um álbum que marca o início de uma nova fase em sua carreira. O disco nasce de um momento delicado da vida do cantor, especialmente após a perda de seu pai, e transforma o luto em seu principal tema. Entre memórias, despedidas e recomeços, Jão entrega seu trabalho mais íntimo até aqui.
A carga emocional é, sem dúvida, o maior acerto do álbum. As letras são sinceras e mostram um artista disposto a expor suas vulnerabilidades sem recorrer a exageros. Existe verdade no que Jão canta, e isso faz com que Memórias Póstumas tenha uma identidade muito bem definida do início ao fim. Ao mesmo tempo, essa identidade acaba se tornando sua principal limitação. A escolha por manter praticamente toda a tracklist na mesma atmosfera faz com que o disco perca impacto conforme avança. As músicas conversam entre si, mas poucas conseguem se destacar individualmente ou surpreender o ouvinte.
A produção continua sendo um dos pontos fortes da carreira de Jão. Os arranjos são elegantes, os vocais estão seguros e tudo parece cuidadosamente pensado. Ainda assim, o álbum transmite a sensação de que prefere permanecer em uma zona de conforto, sem explorar caminhos que poderiam tornar essa nova fase ainda mais marcante. Memórias Póstumas está longe de ser um trabalho fraco. Pelo contrário: é um disco honesto, sensível e muito bem executado. O que falta é justamente o elemento que transforma um bom álbum em um grande álbum. Para um projeto apresentado como um recomeço, fica a impressão de que Jão escolheu a continuidade em vez da transformação.
No fim, o álbum confirma o talento de Jão como compositor e intérprete, mas dificilmente ocupa o topo de sua discografia. É um álbum consistente e emocionalmente verdadeiro, embora mais seguro do que memorável.